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Bimba, um apaixonado nato pelo windsurf - Site Oi (17/10/06)

Entrevista para o site www.oi.com.br

Rio de Janeiro - O namoro começou cedo: aos dois anos de idade, quando conheceu a grande paixão da sua vida: o windsurf. Aos 11 demonstrava desenvoltura em cima da prancha e era a sensação entre os mais experientes, que já previam sua trajetória de sucesso. Hoje, aos 26, seus olhos ainda brilham ao falar sobre o esporte.

Um apaixonado como ele mesmo se define, o atleta Oi Ricardo Winicki, o Bimba - heptacampeão brasileiro, ouro no pan-americano de 2003 e prata em dois mundiais (2002 - 2005) - sonha em ganhar uma medalha olímpica. Para trilhar o caminho rumo à conquista tão esperada conta com o apoio da família e se inspira ouvindo música, num ritual que já lhe ajudou a subir ao lugar mais alto do pódio.

No momento, sua atenção está voltada para o Pan-Americano de 2007. No fim de semana, participou do Pré-Pan American Games Regatta, no Iate Clube do Rio de Janeiro - que contou com a participação de 11 países e foi a primeira prova qualificatória de Vela - sagrando-se campeão na sua categoria.

Confira a entrevista com Ricardo Winicki, o Bimba:

Oi Internet - O que você espera do Rio 2007?

Bimba - O Pan-Americano vai ser bem difícil, porque a Baía de Guanabara é um local muito difícil de velejar, tem muita correnteza, tem muita mudança de vento. Em julho, a condição de vento é bem ruim no Brasil. A sujeira da Baía de Guanabara tem atrapalhado muito, como sacos plásticos. Eu já bati com a quilha em cachorro, porco, porta de geladeira, televisão, já quase atropelei um defunto e assim vai. Acho que o principal adversário de todos, não só meu, vai ser o lixo. Infelizmente, a gente tem esse probleminha. Além dos adversários, além da natureza, a gente ainda tem esse problema de sujeira.

Oi Internet - E a busca pelo índice para se classificar para os Jogos?

Bimba - Esse pré-pan serviu de treino para o Pan-Americano. Mas é legal porque a gente está na raia onde vai ser realizado o evento. Não conseguimos fazer na mesma época do ano como são os pré-olímpicos, o que seria ideal, porque assim a gente conhece a condição climática do local. Em julho tem uma condição de vento diferente da que está tendo agora em outubro. O ideal era que tivesse sido em julho pra gente velejar o mais próximo possível (da condição climática na ocasião do evento). Eu tento me classificar em fevereiro (A seletiva de vela para o pan-americano acontece no dia 3 de fevereiro, no Iate Clube do Rio).

Oi Internet - Como é a vida de um atleta?

Bimba - Tem o lado bom e o lado ruim. O lado ruim é que você passa muito tempo viajando, longe de casa, longe da família. Eu perdi o contato com meu amigos do colégio, nunca saí à noite quando era adolescente, não que fosse me atrapalhar, porque acho até saudável sair um pouco e descontrair, mas eu era tão apaixonado pelo esporte, fanático, que não queria perder tempo, não queria sair e no dia seguinte estar cansando e o treino ser ruim. Eu não ia às festas.

Oi Internet - O esforço valeu a pena?

Bimba - Com certeza, faria tudo de novo, sem dúvida.

Oi Internet - Quando começou esse namoro com o windsurf?

Bimba - Conheci o windsurf com dois anos de idade de tanto perturbar meu pai que saía para velejar em Porto Seguro, na Bahia. O mar era calminho e se ele não me levasse eu ia nadando até onde fosse, ninguém me segurava. Dois anos de idade, com bóia, entrava no mar e ia, até ele me pegar. Assim eu fui conhecendo e fiquei apaixonado pelo esporte.

Oi Internet - Como foi o início da carreira?

Bimba - Comecei a velejar com 11, e do primeiro dia que eu velejei, fiquei alucinado. Me apaixonei e nunca mais parei. Pra você ter uma idéia, a escola funcionava de terça a domingo e o professor era o Boy, o Fernando Ermel. Ele era vizinho meu de prédio e na segunda-feira voltava do colégio, ia na casa dele, pegava a chave do clube, abria o clube, velejava sozinho com 11 anos, voltava e devolvia a chave. Eu não parava. Com um mês, dois meses, de windsurf, ele virava para os outros garotos e falava: se prepara que esse aqui vai ser campeão, vai pra olimpíada de 2000, isso em 1991, vai ser um dos melhores do mundo, vai ganhar de vocês. E eu ficava todo envergonhado. Os garotos eram muito melhores que eu, muito mais talentosos, eu era pequenininho, pesava 30 quilos. Ele acreditou em mim, eu acreditei nisso, minha família sempre acreditou. Meus pais sempre foram acompanhando e acabou que a família apoiou muito. Foi muito importante também o apoio da minha mulher. Eu estou com ela já há 10 anos, desde os 16. Dá força no treino. O dia que eu não quero treinar: vamos lá, vamos lá. O dia que estou treinando demais: cara precisa descansar, você está muito estressado. Quando tem uma regata mais difícil ela percebe se eu estou nervoso. Isso é bem importante.

Oi Internet - Como você se prepara para uma competição?

Bimba - Eu me alongo, me concentro, vou mentalizando, penso na vitória, sem pensar no já ganhou. Eu boto uma música legal, não tem uma música certa, é uma música que me toca naquele dia ou naquela semana. Quando fui vice-campeão do mundo todo dia escutava Capital Inicial. Quando fui campeão pan-americano, um dia eu acordei tava tocando uma música na vila pan-americana. Aí virei pra um amigo meu e disse: vou ganhar esse pan-americano. Todos os dias de manhã eu botava essa música e me dava uma energia danada, ia pra água pensando na música, cantando, pensando na minha família. Depois até descobri que fizeram um estudo que a música pode melhorar em até 20% o desempenho de um atleta. Me ligo muito na música. Acho que isso é o que mais me ajuda.

Oi Internet - O que falta ganhar?

Bimba - Uma medalha olímpica. Ganhar em si é muito difícil. Você ser campeão é um detalhe. A cor da medalha não importa, o que importa é você ganhar uma medalha, se é ouro, é prata ou bronze é um detalhe muito pequeno. Não vou enlouquecer com campeão, campeão, campeão. O pódio é muito importante. Eu tenho pódio em Mundial, pódio em Sul-Americano, pódio em Jogos Sul-Americanos, Pan-Americanos, todos os eventos importantes de Grand Slam eu já subi no pódio, menos na Olimpíada, que é o mais importante de todos, o mais difícil e é só de 4 em 4 anos. A minha primeira Olimpíada (em 2000, Sidney) eu tinha 20 anos, era o mais novo, fui 15º, e a Olimpíada de Atenas o objetivo era ficar entre os cinco os seis primeiros, e quase ganhei, foi por pouco, terminei em quarto.

Oi Internet - Qual foi a derrota mais marcante?

Bimba - A Olimpíada de Atenas foi a que mais marcou. O quarto lugar é excelente, mas comecei a olimpíada em sexto, passei pra terceiro, passei pra segundo, passei pra primeiro, aí fiquei em primeiro, segundo, primeiro, segundo, e acabei em quarto. Isso marcou bastante, foi bem forte. Sofri durante um bom tempo, sonhei com isso muito tempo. Não fiquei triste ou deprimido. Mudou a minha vida financeiramente, porque sei que no Brasil um medalhista olímpico recebe muito mais dinheiro, tem muito mais valor. Ia entrar pra história junto com Torben Grael, Lars (Grael), Robert Scheidt e outros velejadores medalhistas. São tão poucos, a gente conta nos dedos e eu ia estar nessa lista. Essa olimpíada de Atenas marcou bastante. Em nenhum momento eu pensei em parar de velejar. Pelo contrário. Eu cruzei a linha de chegada e qual foi o lugar? quarto? A primeira coisa que veio à minha cabeça: tenho que ganhar uma medalha em Pequim. Não foi ai quero mandar tudo para o espaço, nunca mais vou subir numa prancha. Em nenhum momento.

Oi Internet - E o futuro?

Bimba - Eu não sei qual é o futuro de um atleta no Brasil. Tenho um pouco de medo disso. O dia que me ligarem e falarem que meu patrocínio acabou...Então, me dá aquele frio na barriga. Tenho a minha escola (de windsurf) que é bem legal em Búzios. No windsurf, a minha idéia é ir até os 32 anos, quem sabe os 36, se meus alunos não me ganharem, e depois partir pra um barco, velejar com alguma coisa diferente, ou seguir na minha escola. Gosto muito de ensinar as pessoas. Gosto muito de ajudar no treino, porque eu sei que quanto mais eu ajudo, mais eu aprendo também. Quem sabe seguir a carreira como técnico.

Sâmara Ibañez - Redação Oi

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